Boletim Federação Imaculada Conceição dos Mosteiros da OIC no Brasil
Dezembro de 2009 - Ano 02 - Número 17

 
   
 

FORMAÇÃO: Um caminho a percorrer

“A formação na Ordem da Imaculada Conceição tem como objetivo conseguir, no tempo atual, que as monjas e candidatas se capacitem para seguir Jesus Cristo e viver, a partir da contemplação, o Evangelho e o mistério da Imaculada Conceição, segundo o estilo de vida de Santa Beatriz” (CCGG 124).
 

A PARÁBOLA DOS TRABALHADORES DA VINHA OU DA LÓGICA “ILÓGICA” DOS ÚLTIMOS

É narrada por Mateus no começo do capítulo vinte de seu Evangelho (Mt 20, 1-16). Nela Jesus nos transmite sua concepção de Deus e como é Deus para nós, quais a causas que comovem seu coração e qual é seu “sonho” sobre a humanidade e sobre cada um dos homens. Pronunciada em um ambiente de controvérsia com seus opositores, cujas idéias sobre Deus se diferenciavam notavelmente das de Jesus, supunha um ensinamento-choque para seus ouvintes pela “novidade” que introduzia. Expressa o desejo e o convite de Jesus a entrar na nova visão de Deus e do homem. Jesus viria a dizer a seus opositores fariseus: “Meu Pai é assim, por isso eu sou assim também; não tens razão em atacar-me”.

Se os destinatários da parábola foram principalmente os fariseus, para quem supunha um escândalo, haveria de admitir que hoje nos encontre como destinatárias necessitadas igualmente de conversão. Porque, no que se refere a Deus, todos levamos dentro de si um fariseu necessitado de conversão. Não aparece o dono da vinha como arbitrário e injusto? Não pensa isso mesmo o fariseu legalista que levamos dentro de nosso coração? Para viver espiritualmente esta parábola, para deixá-la entrar em nós haveremos de sentir primeiro como e até que ponto a realidade que vivemos, com sua concepção mercantil das relações, impulsiona nessa direção. Só assim poderemos experimentar a “novidade” que introduz na nossa vida a boa nova de que Deus é de outra maneira e o chamado a converter-nos a ela. Deus dá seu Reino aos pobres, aos publicanos e pecadores, imerecidamente; nem a quantidade nem a qualidade do trabalho realizado podem ser apresentados como geradores de mérito ante Ele; com Deus não é aplicável a lógica humana do rendimento, o cálculo cotidiano que relaciona implacavelmente retribuição com produtividade, e que, lamentavelmente entra também em muitos âmbitos da Vida Religiosa.

As coisas de Deus, em Jesus Cristo, não acontecem por acaso, mas tem um caráter de revelação; não são um “acidente”, que qualquer uma pode decidir-se pelo seguimento de Jesus, senão um “desvelar” de dois aspectos integrantes desse seguimento, sumamente importantes para a Igreja de hoje. O mundo é o lugar histórico de onde Deus nos convoca a anunciá-lo nos caminhos da filiação e da fraternidade, componentes definitivos do Reino.

Chegando aqui podemos nos perguntar: nós vivemos a espiritualidade do despojamento e do esvaziamento de Maria, de nos sentirmos escravas para dar lugar a Palavra, para que se faça em nós também sua vontade?

Se queremos formar como deve ser é necessário, hoje mais que nunca, que a formação narre com toda a força da “ilógica” de Deus a parábola dos trabalhadores da vinha, assinalando que Deus é amor, e o amor se dirige - preferencialmente - para onde estão as vítimas do desamor; por isso cada comunidade religiosa deve ter em conta as grandes preocupações do nosso tempo. Cada comunidade deveria discernir sinceramente as possibilidades reais e os meios que conta para fazê-lo de modo efetivo. Estes compromissos devem ser evidentes e, portanto, antes de mais nada, na própria fraternidade: porque se não somos capazes de querer “concretamente” a nossas irmãs, não seremos capazes de querer a nenhum outro ser humano. Para nós a comunidade é como um “laboratório de ternura”, da mesma ternura que depois devemos irradiar aos demais.

É necessário narrar com todas as forças esta parábola para plantar brotos novos que não dêem logo frutos, senão cachos suculentos dos quais possamos comer todos, os do Norte e do Sul, os do Leste e do Oeste, as distintas raças, as mulheres e os homens. Por isso esta hora undécima que é o nosso tempo está perante nós como um momento de graça.

A parábola do Bom Samaritano e da bondade indiscriminada

Esta parábola (Cf. Lc 10,30-35) se presta a diversas interpretações. Uma das mais freqüentes é que nos encontramos com pessoas que foram “assaltadas” pela enfermidade, pela dúvida, a solidão e uma vida sem sentido; que vivem centradas no consumismo, no hedonismo, e nós religiosas, queremos da nossa parte mostrar-lhes uma vida centrada no primado de Deus. Nossa ousadia é preocupante. Quiçá, então, o caminho para esta realidade seja a “via samaritana”. Quer dizer, quando o diálogo cultural se obstrui, quando as palavras perdem força comunicativa, não fica sempre aberta a porta da bondade? Fazer o bem e acolher exagerada e indiscriminadamente, não é a melhor maneira de chegar ao centro das pessoas? A “via samaritana” é o recurso com o qual devemos acariciar nosso mundo.

Na formação atual é necessário por “na moda” a bondade, ensinar a ser “simplesmente bons” e a por “ternura no mundo”; educando para uma geração de irmãs que supere a tentação de colocar-se agressivamente perante o mundo que pode ser hostil; que creiam no poder humanizador que tem o fato de querer a cada homem por si mesmo, de por entre parêntesis as ideologias e de entrar, como sócios de direito, no mercado comum das dores humanas. A Vida Religiosa contemplativa não se justifica sem essa gratuidade e essa ternura, ainda mais, sua missão é mostrar que o mundo pode ser transformado por ela.

A parábola da cizânia e a rede ou do risco e da obscuridade do ambíguo e do misturado (indistinto).

Em todas as partes do ambiente de Jesus se produziam intentos de constituir a comunidade santa, o verdadeiro povo de Deus, separado da multidão pecadora.

Isto nos pode suceder a nós se cremos que, pelo mero fato de estar na clausura somos o “resto santo” em meio a um povo pecador, e é necessário narrar estas parábolas para fazer entender às irmãs em formação que é pedido uma singular agudeza no discernimento. Nem tudo é bom e nem tudo é mau em nosso cenário cultural. Nem tudo é bom por si só mas também nem todo mal é irreparável. Se se quer estar aí comunicando a salvação de Deus, é essencial estar sem prejuízo, sem subestimar a simpatia pelo ser humano, objeto preferido da bondade e da simpatia do Pai e cenário de sua presença ativa no Espírito.

Narrar hoje estas parábolas, como testemunhos, supõe aceitar a vocação de ser especialistas em “saber iluminar com luz tênue”; porque é o instrumento de um Deus que se revela ocultando-se, deixando-nos “deslocar” pela Palavra e suspeitando de nossas clarividências, com a coragem de entrar na “nuvem” de cada momento histórico e de cada corrente cultural buscando as sementes do Verbo que estão semeadas e que nós, como Concepcionistas, teremos de acolher e fazer germinar para dar ao mundo o verdadeiro rosto de Deus.

PS: Com esse artigo concluímos a tradução do texto sobre a Formação Inicial. A partir do próximo número do Boletim, iniciaremos a tradução de novo texto. Desta vez sobre a Formação Permanente de autoria de nossa Irmã Maria da Cruz Alonso Paniagua, OIC, Presidente da Federação Santa Maria de Guadalupe, na Espanha.

Tradução de Me. Lindinalva de Maria, OIC
Mosteiro de Nossa Senhora da Conceição
Salvador/BA